quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tupã



O Governo Federal anunciou nesta segunda-feira, 17 de Janeiro, um Sistema de Alerta Contra Desastres Naturais que deve ficar pronto daqui a quatro anos, e cujo carro-chefe será o novo Supercomputador adquirido em dezembro de 2010 ao custo de R$ 50 milhões (dos quais R$ 15 milhões foram financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e R$ 35 milhões pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP)). A máquina, instalada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de Cachoeira Paulista, reduzirá o raio de alcance da previsão de catástrofes de 20km para 5km, com precisão de 90% de acerto para previsões com três dias de antecedência, e foi criativamente batizada de Tupã, em referência à manifestação do deus tupi Nhanderuvuçu, cuja voz se fazia ouvir nas tempestades na forma do som de trovão. Uma excelente ação Governamental, certo? Nem tanto.

O investimento tecnológico e o planejamento preventivo, revestidos pomposamente pelo símbolo cultural seriam, sem dúvida, os supra-sumos das aplicações públicas das últimas décadas, se não fosse o contexto no qual está engajado.

Há muito tempo é conhecida a situação da região serrana do Rio de Janeiro, que inclusive já fora acometida por desastres naturais – em maiores proporções, e com menos vítimas, diga-se de passagem –, mas apenas algumas décadas de omissão e umas muitas centenas de mortes depois, o Estado resolveu agir. Proporcionalmente à omissão estatal, cresceu o número de pessoas postas à margem da sociedade, as quais, consequentemente, são obrigadas a morar em áreas de risco, o que explica a exorbitante divergência entre o número de mortes nas catástrofes atuais e o de outrora.

Verdade é que não era necessário um novo supercomputador para prever as catástrofes na região serrana do Rio. A situação de risco era – e ainda é em muitas outras localidades que estão à mercê da boa vontade de Tupã – patente, até mesmo gritante, aos olhos do estado. Um pouco de bom senso governamental bastaria para poupar o sofrimento da população historicamente desfavorecida.

“Desde crianças, aprendemos que no Brasil não há vulcões, terremotos, etc... Talvez por isto até hoje não ‘sabemos’ lidar com chuvas de verãoMarcelo Tas

Alguns preferem dizer “antes tarde ‘do que’ nunca”, mas se o Estado ratificar sua relação de dependência de Tupã – seja do mitológico ou, agora, do tecnológico – e não passar a investir em organização e planejamento, ao invés de somente prevenção (quando não, medicação), as conseqüências serão cada vez maiores.

J.S.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 

Modelo Simple. Imagens de modelo por touring. Tecnologia do Blogger.